
Entrou no toalete quando comecei a escovar os dentes. Sem tempo para esse breve momento de pausa há algumas semanas, saiu sangue quando encostei as endurecidas cerdas na gengiva.
Ela, percebeu a vermelhidão da escova e da originalmente branca pasta que escorria pelo meu queixo, não demonstrou. Elegantemente se ajeitou na pia ao meu lado e olhou para mim com as mãos sobre o creme dental que comprei em Madri há alguns dias.
Um grunhido enquanto eu tentava me posicionar para que tudo caísse dentro da pia bastou para que ela colocasse um pouco — muito, segundo minha visão de econômico — na sua escova; sorridente, como pude ver pelo espelho.
Um grunhido enquanto eu tentava me posicionar para que tudo caísse dentro da pia bastou para que ela colocasse um pouco — muito, segundo minha visão de econômico — na sua escova; sorridente, como pude ver pelo espelho.
Espelho, aliás, pelo qual ficamos nos observando curiosamente durante todo o processo. Ela tem uma pintinha marrom no olho esquerdo apontando para o nariz. Deve ter percebido a tonalidade vermelha da minha saliva, porque parou a escova na boca enquanto olhava fixamente para a minha, quase estrábica — a pinta no olho revelou-se maior do que analisei antes. Fiquei estático de vergonha.
Decidimos enxaguar a boca antecipadamente para nos conhecermos melhor. Quer dizer, eu queria conhecê-la melhor; ela parecia estar com pressa — muitos vôos estavam marcados para logo mais.
Prendendo-a por alguns segundos comigo na madrugada vazia, descobri que ela também gosta de olhar o mundo em silêncio, embriagar-se para encará-lo pela manhã, ler na cama — e só deixar os olhos fecharem quando o mocinho matar o bandido –, dividir uma xícara de café com leite, pedir açúcar para o vizinho quando se tem em casa, pegar o ônibus errado e perguntar onde está só no ponto final. Há quanto tempo não fazemos essas coisas…
Apesar das tentativas, o relógio não parou, e ela precisava ir.
Numa última pergunta, descobri que ia para Madri. “Aproveite para comprar mais pasta para mim”, brinquei. Ela apenas franziu as sobrancelhas, saiu calada. Será que a ofendi?
Talvez não lhe fosse um bom dia, talvez não tenha dormido bem…ou talvez a solidão tenha me tornado um insensível! E ela simplesmente não apreciou meu senso de humor…
Prendendo-a por alguns segundos comigo na madrugada vazia, descobri que ela também gosta de olhar o mundo em silêncio, embriagar-se para encará-lo pela manhã, ler na cama — e só deixar os olhos fecharem quando o mocinho matar o bandido –, dividir uma xícara de café com leite, pedir açúcar para o vizinho quando se tem em casa, pegar o ônibus errado e perguntar onde está só no ponto final. Há quanto tempo não fazemos essas coisas…
Apesar das tentativas, o relógio não parou, e ela precisava ir.
Numa última pergunta, descobri que ia para Madri. “Aproveite para comprar mais pasta para mim”, brinquei. Ela apenas franziu as sobrancelhas, saiu calada. Será que a ofendi?
Talvez não lhe fosse um bom dia, talvez não tenha dormido bem…ou talvez a solidão tenha me tornado um insensível! E ela simplesmente não apreciou meu senso de humor…
“Tchau”, sussurrei com as torneiras ainda jorrando.
Ninguém mandou entrar no banheiro masculino.
mariza Monte - amor i love you
