Foi exatamente essa a frase que ouvi, quando sugeri à Jéssica que “rachássemos” a despesa . Não é por nada não... Mas eu estava duro naquele momento! Que coisa mais constrangedora ter que admitir isso... Mas o fato era que o convite ( na verdade, uma intimação) me pegara em plena entressafra do salário.
- A gente podia sair hoje na hora do almoço... Que tal? Semana que vem, marido chega de viagem, e deve ficar hibernando uns 15 dias... Ahhhh vamos...! Tô com uma saudade...A droga de ser homem,macho do sexo masculino é exatamente essa: Nem sempre a gente trepa por que deseja isso. Fica aquela noção de civismo misturado com cinismo, e a gente sucumbe ao especial do cheque, à porra do cartão de crédito, e sucumbe - mesmo- à própria ausência de vontade, e vai “para a batalha” caprichando nos efeitos especialíssimos da macheza congênita e adquirida. A gente vai lá e come mesmo.
Vocês não imaginam o que esconde uma simples coçadela nos bagos... É a síntese da falta de vontade. É aquele empurrão para a máquina pegar a qualquer momento, estando ou não o tanque de combustível com algo nele... Ser macho, machão mesmo, tem dessas coisas. Viramos uma mera extensão de nossos falos, transmutamo-nos em “homens-caralho”.
Mas aquela colocação de Jéssica me aborreceu. Ou então algo de diferente estava acontecendo comigo.
- Porra... Isso você deve gastar num desses batonzinhos xexelentos , o que é que tem de mais? Tá escrito em algum código se conduta que os homens devam pagar a conta? Tudo bem...
Não tem coisa mais ridícula, do que ligar para o cartão de crédito, e ficar fazendo conta de quanto sobrou, dentro de um Motelzinho, nu e literalmente duro. Aquela situação me deixou realmente puto.
E em segundos eu já tinha me vestido .
-Ahhh... Já se vestiu? Eu pensei que a gente ainda ia namorar mais um pouquinho...-Não vai dar. Se a gente demorar mais meia hora, a conta dobra, aí FODEUUde vez... E tem mais. Não vamos “namorar mais um pouquinho”, nem hoje, e nem nunca mais. Me esquece...
-Puxa vida! Tá nervosinho?
Relaa vai... Vem aqui, vem...
-Não. Já disse. Acabou mesmo. Não quero mais.
-Posso saber o que houve?
-Pode sim. Resolvi que daqui para a frente vou dar a bunda. É... É isso... -Pára de bobagem... Toma aqui a minha parte...
Só de sacanagem, aceitei a grana, e apertei o cinto. Jéssica ficou meio atônita, mas foi se vestindo também, não sem antes emitir um som estranho, meio que um gemido, meio que uma onomatopéia de desdém. Deixei-a duas esquinas antes da sua rua, como sempre fazia em nossos encontros. Um “tchauzinho” fofo substituiu os beijos voluptuosos de praxe e estilo. Realmente algo começava a mudar comigo. O rádio do carro acabava de dar uma notícia ruim da bolsa-de-valores, e eu estava mais interessado em achar uma musiquinha calma e relaxante. Tive medo que aquela bravata em “dar a bunda” tivesse acordado algo adormecido dentro de mim. Eu acho que eu não suportaria tantas mudanças. Ou não...?
Bem... O fato é que não acabei alargando as pregas mestras do cu, como certamente anda fazendo o Ronaldo. Mas algo definitivamente havia mudado, e eu começava a descobrir.
-Chefinho... O senhor está com uma cara péssima...!
-Obrigado Dolores... Era isso que eu estava esperando ouvir hoje.
-Tá gripado chefinho?-Não Dolores... Eu hoje quase decidir passar a dar o rabo. Foi só isso.
-As cotações caíram hoje, né?Relaxa vai...
-Porra! Você também? Eu decido dar meu rabo, as cotações despencam, e você me sugere relaxar?-É a sua cara chefinho... Tá péssima. Quer uma massagem?
-Não Dolores... Quero um negão.
-O senhor tem algo em vista?
Resolvi não continuar o papo, pois eficiente e loira como ela é, era bem capaz de em minutos aparecer um daqueles gogo-boys de filme pornô bem na minha frente. E sem cartão corporativo, nem milhares de dólares na conta bancária, seria bem difícil resolver o mal-entendido além do escândalo.Aquela frase ainda me ecoava nos miolos: “ E eu sou mulher de pagar a conta do Motel ? ...” .
Trepar comigo tudo bem... Mas pagar a conta era indigno... O paradoxo fático era tão evidente, a colocação desnecessária era tão evidente, que minha previsão de que aquele valor era tão pouco, e de que a custaria um batonzinho a menos , que aquelas notas dela ainda estavam no bolso de minha calça. Algo realmente mudara na minha cabeça, e Jéssica havia me prestado um imenso favor, além da caridade Romana... Ela havia detonado a síntese do que eu nunca quisera aceitar. A futilidade da vida vivida de qualquer jeito. Essa coisa medonha da gente fazer as coisas, sem nem ao menos pensar bastante a respeito. Tá certo que adultério não é mais crime... Há adultério nas novelas, no andar de cima, e até nas casas de caridade.
Ao rigor do Código Penal eu continuava virgem e primário como o meu rabo.
-Roger... Você está com uma fisionomia horrível.
-É ... Devo estar mesmo.-Aconteceu algo ruim hoje?
-Aconteceu sim... Trepei a tarde inteira com um casinho meu, quase dei o meu rabo para um negão, as ações caíram, e gastei a grana que eu tinha reservado para pagar a troca do pneu do carro.
-Que bom que teu humor ta voltando...
-Ahhh, e tem mais... Esse papo de dar o rabo mexeu comigo... Tô pensando seriamente no fato.-Relaxa vai...-Puta que pariu... Você também?
-O que você quer para o jantar?-O de sempre...
-Ok, o de sempre. Perfeito?-
Fazer o que né? O de sempre...
Foi assim que descobri o que estava realmente acontecendo comigo. Nada... O de sempre... E fui dormir relaxado.
Sonata Artica - My land
Foi assim que descobri o que estava realmente acontecendo comigo. Nada... O de sempre... E fui dormir relaxado.
Sonata Artica - My land
